martes 1 de enero de 2008

Era outubro, o vento soprava fazendo cair algumas folhas amarelecidas, próprias do Outono, mas não fazia frio, estava até uma temperatura bastante amena apesar do céu meio nublado. Ela saíra de casa pouco abrigada e com umas calças compradas no dia anterior, prontas a estrear. Não tinha grandes programas para esse dia, almoçaria em casa dos avós e depois iria à sede dos escuteiros para conversar com a chefe da sua secção, visto que o acampamento previsto para esse fim-de-semana tinha sido cancelado. Estava calma, sem saber bem o que esperar e muito entusiasmada enquanto percorria o não muito longo trajecto que separava a casa dos seus avós da sede, mas assim que saiu do carro quando chegou ao destino uma onda de ansiedade cresceu dentro dela e à medida que ia caminhando para a entrada da sede o seu desejo era voltar a entrar no carro o mais depressa possível. Respirou fundo e fez o ar mais calmo possível quando o pai lhe pôs a mão no ombro e a olhou sorrindo, não queria que ele pensasse que estava arrependida ou com medo ou algo assim. Subiram uma pequena escada e entraram na sede, deixando para trás um grupo de jovens à volta de umas árvores. Ela não sabia se eram da sua idade ou não, passara por eles de olhos fixos nas unhas dos dedos que roia pelo nervosismo. Entrara na sala que presumira ser a dos chefes e aí conheceu a Ca, que lhe explicou como funcionavam as coisas ali nos escuteiros, como estavam organizados em secções e em equipas, ela já tinha uma ideia porque tinha andado a pesquisar sobre os escuteiros, para estar minimamente preparada. Mas para o que ela não estava mesmo nada preparada era para o que viria a seguir, e foi com enorme espanto (e um ataque de ansiedade) que percebeu que estava em actividade, ali e a partir daquele momento. De repente sentiu uma forte dor de barriga, só queria um buraco para desaparecer, não se sentia preparada para entrar assim no meio de um grupo, ainda por cima ela que era tão tímida! 'Vou morrer' e 'o que é que me passou pela cabeça?' foi só no que ela pensou antes de se despedir do seu pai e se juntar aos escuteiros da sua secção e seus futuros grandes amigos, que sim eram aqueles por quem ela tinha passado momentos antes e para os quais nem sequer tivera coragem para olhar...
10...9...8...7...6...5...4...3...2...1, BOM ANO NOVO!!!
Mil papelinhos coloridos saltaram, garrafas de champanhe foram abertas molhando tudo à sua volta, toda a sala se encheu de hurros e gritos a desejar felicidades. Ela deixou-se simplesmente ficar sentada, os cotovelos em cima da mesa e a cara apoiada nas mãos com o seu habitual ar pensativo, como se não estivesse ali mas a milhas de distância e talvez até num tempo que não aquele. Foi obrigada a levantar-se para cumprimentar os pais, irmãos, tios e primos que de todos os lados lhe desejavam um bom ano e a abraçavam, ela respondia-lhes com o tom mais agradável que conseguia fingir, desejando não estar ali a abraçar aquelas pessoas mas sim noutro sitio com as pessoas a quem ela queria mesmo abraçar. Olhou pelas grandes janelas da sala em direcção a casa, pensou nas pessoas com quem desejava estar nesse momento, os seus amigos, a quem desejava poder dizer bom ano e abraçar com força, num abraço que diria mais que mil palavras. Perguntava-se como estariam eles a celebrar, com certeza que estariam todos alegres e felizes, sorriu enquanto os imaginava assim. Saberiam como ela pensava neles, como lhes desejava tudo de melhor do mundo? Lembrar-se-iam eles dela? Um arrepio percorreu-a e o pequeno sorriso de à pouco caíra, invadira-a o persistente medo de cair no esquecimento, um medo que ia e vinha cada vez com mais frequência conforme o tempo que ficava em Espanha aumentava. Não, pensava abanando a cabeça, não podia pensar assim, tinha amigos verdadeiros e sabia que não se esqueceriam dela nunca assim como ela nunca se esqueceria deles. Contudo, uma estranha sensação de perda, de fim, permanecia dentro dela. Esse ano que tantas coisas boas lhe trouxera, que tantos bons momentos lhe proporcionara, esse ano em que conhecera pessoas marcantes e vivera experiências emocionantes chegara ao fim. O ano que agora acabava tinha sido um inicio e um 'fim'. Na verdade, o inicio tinha sido um pouco antes, tudo tinha começado naquela tarde de sábado em que pusera pela primeira vez os pés na sede, em que participara pela primeira vez numa actividade, isso tinha sido o inicio, mesmo que ela so viesse a aperceber-se disso mais tarde..